quarta-feira, 27 de julho de 2011

A CAÇADA ENLATADA

Em seu livro Introduction to Animal Rights – Your Child or the Dog? (“Introdução ao Direito dos Animais – Seu Filho ou o Cachorro?”, publicado em 2000 pela Temple University Press), o professor norte-americano Gary Francione defende que nossa sociedade sofre de uma “esquizofrenia moral” (moral schizophrenia) no que diz respeito à maneira como tratamos os animais.


Segundo Francione, nosso discurso sobre acreditarmos ser moralmente errado infligir sofrimento “desnecessário” aos animais não corresponde à maneira como realmente agimos em relação a eles, causando-lhes incríveis quantidades de sofrimento que, sob nenhum aspecto, podem realmente ser considerados “necessários”.

No Capítulo 1, The Diagnosis: Our Moral Schizophrenia about Animals, o autor menciona numerosas formas de exploração e sofrimento a que submetemos os animais, entre elas a Canned Hunt.

Muito comum na África do Sul e nos EUA (o ex-vice-presidente Dick Cheney é um praticante assíduo), a Canned Hunt é uma forma de “caça esportiva” em que um animal (normalmente criado em cativeiro e acostumado a conviver com pessoas) é solto em um local cercado e passa a ser “caçado” por um sujeito rico e desocupado que pagou uma fortuna para se sentir muito másculo.

Dois significados do termo canned são pertinentes aqui:

1 – Literalmente, canned é algo “enlatado”, como em canned meat (carne enlatada) ou canned-goods (conservas). Pode ter o sentido de algo que foi preparado de antemão ou de algo artificial, como, por exemplo, na expressão canned laughter, que corresponde àquelas risadas gravadas usadas em programas humorísticos.

2 – É, ainda, uma gíria americana para “estar enclausurado”, “confinado”, “encarcerado”, “aprisionado” (can = prisão).

A Canned Hunt, assim, tanto pode ser traduzida como “caçada confinada”, uma vez que ocorre dentro de um perímetro em que o pobre animal é mantido, sem qualquer possibilidade de fuga (não à toa, anuncia-se aos clientes uma guaranteed kill), como também pode ser uma “caçada enlatada”, ou seja, uma caçada “artificial”, preparada, que se utiliza de um animal amansado (em oposição à caçada “real”, na qual é “concedida” ao animal selvagem uma fair chase – uma “perseguição justa”, com posssibilidade de fuga).

De qualquer forma, independente de sua tradução, a canned hunt (ou qualquer tipo de hunt), continua sendo uma tremenda babaquice... Certo mesmo estava o “libertino” poeta John Wilmot, Conde de Rochester, que escreveu em 1679 os seguintes versos:

Were I (who to my cost already am
One of those strange, prodigious Creatures, Man),
A Spirit, free to choose for my own share
What sort of Flesh and Blood I pleas’d to wear,
I’d be a Dog, a Monkey, or Bear,
Or anything but that vain Animal,
Who is so proud of being Rational.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

AMY WENT BACK TO BLACK

No sábado, dia 23/07/11, a cantora inglesa Amy Winehouse partiu dessa para uma melhor.

Para alguns, o que realmente chamava atenção era sua vida repleta de escândalos e de polêmicas relativas a abuso de “substâncias” e episódios de violência (perdemos a conta de quantas vezes ela foi presa por bater em alguém ou por posse de drogas).

Para outros, porém, Amy se destacou por sua voz, fazendo lembrar as grandes divas do jazz.

Há quem afirme que o talento dela não era essa _______ (insira aqui o nome de sua marca de geladeira ou refrigerante a base de cola preferidos) toda, mas, como o assunto principal deste blog é tradução, vamos ao que realmente interessa:

Assim que a morte de Amy foi anunciada, todos os canais de televisão passaram a transmitir suas respectivas “homenagens”. Clipes, shows, documentários, entrevistas com ela, com o pai, o cachorro, enfim, todo o pacotão a que estamos acostumados quando alguma celebridade morre. Entre esses programas, foi exibido o show de 2007 no Shepherd’s Bush Empire, em Londres (vocês encontram esse show no DVD I told you I was trouble, distribuído pela Universal Music). As músicas tinham legendas e uma tradução nos chamou a atenção durante o hit Back to Black:


We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
Black, black, black, black
Black, black, black...
I go back to
I go back to

Para o trecho You go back to her/And I go back to black, a legenda trazia o seguinte: “Você volta para ela e eu volto pro breu”.  


Na hora ficamos pensando se “breu” seria a palavra mais adequada para transmitir a ideia de um lugar para onde vai uma mulher que foi largada pelo amante ou trocada por outra. Mas, pesquisando em alguns dicionários de português, notamos que nenhum dos significados de “breu” tem qualquer relação com a letra da música.

Na verdade, a expressão back to black tem mais um sentido de voltar para um lugar de tristeza, algo como entrar numa fossa, numa depressão ou em um luto (no caso, pelo fim de um relacionamento). Ela quis dizer que foi para um black place, isto é, um lugar sombrio, triste, dentro de si mesma (e não para um "breu"!).

Curiosamente, o cantor Neil Young gravou em 1979 uma música chamada Hey Hey My My onde usou o termo black para falar da “escuridão”, do “nada”, ou seja, da "morte" (and once you're gone, you can't come back / when you're out of the blue and into the black). 

Nesse sentido, até podemos dizer que agora a Amy foi realmente back to black...

(Assista neste link a uma versão ao vivo de Back to Black)

domingo, 24 de julho de 2011

CONCURSO PARA TRADUTORES

Estão abertas, até 07/08/11, as inscrições para o concurso público para provimento de vagas e formação de cadastro de reserva em cargos de nível superior e de nível médio da EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO (EBC).

Haverá cadastro de reserva para o cargo de analista de empresa de comunicação pública – atividade: tradução (inglês ou espanhol), para os graduados de nível superior em Letras com habilitação em Inglês ou Espanhol.

O salário inicial é de R$ 2.843,00, com carga horária de 36 horas semanais.

O edital completo pode ser lido neste link do site da CESPE/UnB, instituição organizadora do concurso.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

THE TINGLER!

Os pôsteres de cinema, além da imagem e do nome do filme, costumam trazer uma tagline, ou seja, uma frase de impacto que pretende passar para o público-alvo, de maneira sucinta, informações sobre o gênero e/ou história do filme, ao mesmo tempo em que procura despertar o interesse em assisti-lo.

O pôster comentado a seguir é de 1959. Trata-se do filme The Tingler, que no Brasil se chamou “Força Diabólica”.


A tagline “when the screen screams you’ll scream too” brinca com os sons quase idênticos de “screen” e “scream”. A fim de manter o jogo de palavras, o tradutor poderia tentar algo mais ou menos como “Quando a tela gelar, você gelará com ela” (ou, exagerando um pouco, “Quando a tela gela, você gela com ela”).

Contudo, o ato de “gritar” (scream) é essencial não apenas para a trama do filme (uma vez que o monstro Tingler pode ser derrotado através de gritos), mas também para a promoção do “mais novo e surpreendente gimmick nas telas”: PERCEPTO!

O gimmick é um “truque”, “esquema” ou “segredo” usado em um jogo ou na promoção de um produto. Neste caso, porém, o termo gimmick também significa um dispositivo real, o “Percepto”, usado durante a projeção do filme.

O diretor William Castle era famoso por utilizar gimmicks na promoção de seus filmes. Para The Tingler (literalmente, “formigador”, pois o monstro causa na espinha dorsal de suas vítimas uma tingling sensation, isto é, uma “sensação de formigamento”), uma série de motores foi instalada embaixo das poltronas dos principais cinemas que o exibiam.

No “prólogo” do filme, Castle surge na tela...


...e explica que a qualquer momento em que o espectador estiver consciente de uma “tingling sensation”, o alívio poderá ser obtido através de um grito. “Não tenha vergonha de abrir sua boca e gritar a plenos pulmões (letting rip with all you've got)”, o diretor diz, “porque a pessoa ao seu lado provavelmente estará gritando também. E lembre-se disto: um grito no momento certo pode salvar sua vida!”

E eis que, no clímax da história, o Tingler foge para um cinema, invade a sala de projeção e faz com que o filme pare. O monstro, então, surge na tela...


...e todas as luzes do cinema (tanto o de mentira quanto o verdadeiro em que The Tingler está sendo exibido) se apagam, a tela fica completamente escura e a voz do astro do filme, Vincent Price, surge nos alto-falantes incitando as pessoas a gritarem por suas vidas, a fim de derrotar o monstro!

O “Percepto” era acionado neste momento. Os motores vibravam nas poltronas e provocavam no pobre espectador uma tingling sensation, com o propósito de causar pânico no cinema!

Por tudo isso, percebam como é importante manter na tradução desta tagline a referência aos gritos (“Quando a tela gritar, você gritará também... se dá valor à sua vida!”), ainda que o jogo de palavras se perca, sob o risco de anularmos a intenção e, consequentemente, o impacto da propaganda.

Ficaram curiosos sobre o diretor William Castle e seus criativos gimmicks? Procurem na internet o documentário de 2007 Spine Tingler! The William Castle Story (vejam trechos neste link do You Tube).

terça-feira, 19 de julho de 2011

A SENTINELA NO CAMPO DE CENTEIO

A versão brasileira do livro The Catcher in the Rye é célebre por sua qualidade e criatividade.

Também célebre é a confusão a respeito da tradução de seu título, como indica uma pequena “nota da editora” no início do livro:


Para saber mais sobre como os tradutores Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster chegaram ao título “A Sentinela do Abismo”, sobre a implicância de J. D. Salinger com esta solução, e sobre outras traduções para The Catcher in the Rye, leia neste link o artigo escrito por um daqueles “jovens diplomatas”.

E, só por curiosidade: há alguns anos, encontramos em um sebo um exemplar da 4ª edição do “Apanhador”.


Nele, apesar da “nota da editora” sobre a divergência na tradução do título, não há, no corpo do texto, nem sinal de um “apanhador no campo de centeio” – Holden Caulfield era apenas “o sentinela do abismo e tudo”!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

TRADUÇÃO MACABRA - PARTE 2

Seguimos com os comentários sobre a tradução, publicada em 1989 pela Editora Francisco Alves, do livro Danse Macabre, do Stephen King (dê uma conferida no post anterior).

No capítulo VIII, “The Glass Teat, or, This Monster Was Brought to You by Gainesburgers”, o autor discute vários programas de TV que marcaram o gênero “horror”, como, por exemplo, os seriados The Outer Limits e The Twilight Zone (“Quinta Dimensão” e “Além da Imaginação”, respectivamente, no Brasil).

Este último foi criado pelo escritor/roteirista Rod Serling, que, antes de Twilight Zone, já era muito famoso nos EUA. Ele havia escrito os roteiros de três teleplays (teleteatros) que marcaram a Golden Age (Era de Ouro) da TV americana: Patterns (exibido na TV em 1955, com uma versão para os cinemas lançada no ano seguinte), Requiem for a Heavyweight (exibido em 1956, com uma versão para os cinemas lançada em 1962) e The Comedian (exibido na TV em 1957).

A tradução da Francisco Alves optou por manter os títulos desses programas no original, com exceção de Requiem for a Heavyweight, que foi traduzido como “Requiém para um Obeso”:


Bom, se você não conhece o filme Requiem for a Heavyweight e não achou nenhuma grosseria na referência a “obeso”, essa tradução provavelmente não significa nada para você. Porém, uma pulga talvez surja atrás de sua orelha quando, alguns parágrafos adiante, encontrar o título do filme no contexto da seguinte frase:


Ainda assim, caso esteja muito distraído, você pode achar que o tal “lutador” fica tão gordo ao longo do filme que, por falta de condições físicas, é obrigado a recorrer a lutas arranjadas...

Nada disso! O problema é que o protagonista da história é, na verdade, um lutador de boxe da categoria heavyweight, ou seja, peso-pesado! Não há qualquer referência a um “obeso” em todo o filme (ainda que a versão para os cinemas tenha no elenco Jackie Gleason, que era um sujeito bem gorducho)!

A edição brasileira mais recente de “Dança Macabra”, com tradução revisada, publicada pela Editora Objetiva, tenta consertar um pouco as coisas e traduz Requiem for a Heavyweight como “Réquiem para um peso-pesado”. De qualquer forma, isso ainda parece ser um empréstimo do título do filme na Argentina, Requien para un peso pesado. No Brasil, o longa-metragem de 1962 se chamou “Réquiem por um Lutador” e está disponível em DVD distribuído pela Sony Pictures:


Infelizmente, o leitor interessado em assistir ao filme citado no livro do Stephen King, mas que use estas traduções como referência, pode ter sérias dificuldades para encontrá-lo. Isto porque houve uma falha na (ou falta de?) pesquisa sobre o nome correto com que o filme foi lançado no país, um cuidado básico que todos os tradutores devem ter, não só para filmes, como também livros, peças, etc. Os leitores agradecem.